Althing: O Parlamento Islandês

Althing: O Parlamento Islandês

930 AD. Como sobreviver numa ilha deserta ao norte da Ilhas Britânicas? Como sobreviver numa ilha onde não há lideranças… onde a natureza é mais implacável que na sua terra natal… onde não há estrutura humana… não há cidades… não há fazendas… não há humanos… Como você sobreviveria nessas condições?


Primeiramente, gostaria de me desculpar por uma leve mentirinha no parágrafo anterior, mas se eu explicasse no meio, ia perder todo o estilo dele, não acham? Havia sim humanos na Islândia quando os colonizadores escandinavos chegaram, mas era só um ou outro eremita ou exilado irlandeses e escoceses.

E ai… qual sua reposta? Fazer sua fazenda? Criar animais? Explorar a natureza? Aproveitar a beleza única do lugar? Tá, beleza, isso você deve fazer na chegada. De fato os nórdicos assim o fizeram, quando chegaram lá, em 874, “domar o território”, mas e depois disso? Depois que o ambiente já não mais um perigo tão grande contra sua vida, quando você já tem animais criados, plantações estabelecidas. Essa é a hora da segunda parte da sobrevivência, e tão difícil, se não mais, quanto a primeira. Domar o ambiente faz parte da natureza humana, agora… viver em comunidade sem se matar? Ao meu ver, não.

Bom, antes de continuar nessa discussão e dar-lhes a resposta para a questão acima, vamos voltar um pouco? Queria dar-lhes um brevíssimo review sobre a colonização islandesa.

A parte oriental da ilha fica cerca de 2000 quilômetros de Oslo, que fica perto dos grandes sítios vikings de Oseberg e Kaupang. 79 horas de carro (não sei como, mas é isso que o google sugere). E 2300 quilômetros de Hamburgo, que, na época, era uma grande cidade viking situada no que hoje é Dinamarca. Acredita-se que a ilha foi encontrada por acaso, nos mares difíceis do norte, barcos se perderam e acabaram por lá, isso em 850.

Desde então, a história se espalhou, e milhares de nórdicos decidiram ir para a nova terra. Há aí uma coisa muito importante de salientar: essas pessoas que para lá foram, não o fizeram por ordem de um chefe local, ou de seu soberano… não… viajaram porque queriam mudar de vida. Em sua maior parte dinamarqueses e noruegueses, essas pessoas viveram toda a sua vida sujeita à morte causada por pequenas guerras, pequenas disputas de poder, vendettas que eram levadas até o extremo. Contendas entre pessoas e famílias inteiras poderiam levar a vida de toda a sociedade ao seu redor para um fim prematuro. Isso foi fundamental para que uma das características mais interessante e surpreendentes da colonização islandesa surgisse… o Althing.

Depois de cerca de 30 anos construindo uma estrutura humana na ilha, os fazendeiros que lá habitavam, perceberam que estava na hora de lutar contra os seus maiores inimigos até então… eles mesmos… Numa terra onde não há inimigos nas fronteiras, afinal, era fora da rota para se chegar à qualquer lugar de interesse, como Espanha, França, Inglaterra, e era de tamanha hostilidade geográfica, que nenhum rei seria louco o suficiente de invadir-la, pelo simples motivo de não ter nada a ganhar com isso, eliminando assim a ameaça externa.

No que diz respeito às ameaças internas… Bom, poucos exilados e eremitas não eram capazes de impedir a colonização, como os nativos fizeram na Vinland e Groenlândia. A maior ameaça interna eram os vulcões… mas isso não é controlável.

O único perigo então á civilização islandesa era a implosão, eram eles mesmos. E, visto que, nas terras de onde eles vieram, as contendas eram frequentes, eles precisavam impedir as mesmas. Sim… eles criaram algo que hoje chamamos de parlamento para evitar que se matassem até o último humano.

O país então foi dividido em quatro partes, nada demais… norte, sul, leste e oeste. Cada uma dessas partes foi dividida em 3 comunidades, chamadas de fjörðungar, (a norte foi dividida em quatro porque era maior), e cada uma dessas comunidades, possuía três goðar, chamados de “chieftains”, embora a palavra seja ruim, afinal, eles não eram “chiefs” de nada, eram simples fazendeiros que foram eleitos para que seus colegas da área se levassem suas dúvidas, críticas, pedidos à ele.

Uma vez por ano, depois dos “Things” reuniões em que cada região levantaa questões e reclamações, todos esses goðar se reuniam para discutir as leis e criar novas, assim como para levar as dúvidas de todos os fazendeiros que pediram, e colocá-la em discussão pública. Sim, pública, porque que todos os cidadãos podiam estar presente no local, até as crianças, aliás, sua presença era muito encorajada, e a idade mínima para ser um goðar era de 12 anos, isso nos mostra o quão importante era para essa sociedade ensinar as crianças desde cedo à não matar o amiguinho, e que sempre há uma maneira de resolver as coisas sem que sangue humano seja derramado.

Divisão das regiões. Imagem tirada do texto Feuding in Viking Age Iceland’s Great Village

Local do Althing. Imagem retirada do texto Feuding in Viking Age Iceland’s Great Village

 

Esse caráter público também transformou o Althing num grande evento comercial, grande parte da população da ilha também ia no local para vender, comprar, negociar, conversar, criar amizades. O point.

No entanto, mesmo que fosse público, somente os goðar tinham poder de voto, eram eles que votavam tanto na criação de leis, quanto na resolução de conflitos pessoais, e, era aí que estava a falha do Althing… ele exigia um semi consenso… se 6 goðar tivessem opinião diferente dos outros 30, o caso era engavetado e esquecido.

Muito parecido com a política de hoje não? A ONU por exemplo precisa de um consenso geral, se um dos membros efetivos recusar, nada é feito. No entanto os islandeses perceberam a ineficácia desse sistema rapidamente…
Então, em 960 eles fizeram a reforma no sistema… Visto que a ideia central do Althing era evitar contendas, era evitar que se o fazendeiro X matar o Y, suas famílias entrarão em guerra que se tornará tão grande que toda a ilha estará envolvida, era basicamente evitar que um roubo de cabra acabasse com a civilização deles. Afinal, sabemos como sociedades baseadas na contenda terminam… Alguém lembra daquela cena do Poderoso Chefão 2 quando Michael vai até a Sicília e pergunta onde estão todos os homens? A resposta foi: mortos por vendetta.


E o que é a contenda se não uma vendetta generalizada? Para evitar que seu sistema falhasse, a reforma incluiu um novo tribunal… Ele trataria exclusivamente de casos que foram rejeitados antes, que não obtiveram consenso de mais de 30 goðar, ele só precisava de 51% dos votos. A questão é: ele não poderia aplicar a pena, quem aplicaria seria os próprios julgados, eles davam opções, por exemplo: Ulfr, você matou o pai de Bjorn, ou você paga 8 cabras para ele, ou dá sua filha em casamento, ou pode sair da ilha. Agora Bjorn, se você achar isso injusto e matar Ulfr, quem vai ser expulso da ilha é você. Decidam.


Cara… há algo melhor para evitar que pessoas se matem sem fim? Seu julgamento era público, todos viam, a sociedade estava de olhos, se um dos dois desobedecesse, todos saberiam, todos julgariam. Outro detalhe importante: não era algo definido, não era assim: VOCÊ VAI PAGAR 8 CABRAS E PRONTO. Não… a opção de escolha entre algumas alternativas ajuda que as partes sintam que fizeram justiça com as próprias mãos, elas se realizam mais, por exemplo, se Bjorn escolhe as cabras, ele vai buscar as cabras de Ulfr, não vai recebê-las do governo, o sentimento de vingança é maior.


Foi assim que, evitando disputas locais e pessoais, os islandeses conseguiram evitar se matar até a extinção, no entanto essa farra só durou até o ano de 1264, quando a coroa Norueguesa chegou no local e acabou com essa ideia louca de viver sem se matar.

Mas ainda sim o parlamento islandês não deixou de existir, ainda se chama Althing e é considerado o Parlamento existente mais antigo do mundo

Agora vou responder uma perguntinha que tenho certeza que ficou na cabeça de quem chegou à ler o texto até aqui:
“Aaaaaaaaaaaaa, mas Gabriel, você disse que os goðar não tinham poderes à mais que os fazendeiros normais, e logo depois disse que só eles votavam, isso é incoerente! Se só eles votam, eles tem mais poderes, e vão usar isso para conseguir dinheiro!”.

De fato eu disse isso, mas tem uma questão nessa afirmação: ela só é incoerente se pensarmos com a mentalidade de hoje. Os goðar são efetivamente o que políticos devem ser: pessoas saídas do povo, vivendo entre o povo, com suas mesmas dificuldades, e pessoas sem um famosíssimo “foro privilegiado”.


Pense assim: você mora num prédio com 23 apartamentos, seu vizinho de baixo é um goðar, assim como seu vizinho de porta, e também o cara do térreo. Esses 23 apartamentos são submetidos ao mesmo tratamento, nenhum deles tem um bônus, todos vivem igualmente, o seu vizinho vai saber o que você precisa também… ele vai saber que o gás está estragado, também vai saber que o elevador está fedido. E você não precisa de uma lista sem fim de assinaturas para fazer seu caso ser ouvido por ele… não… basta bater à porta. E se você bater na porta dele e ele te pedir 2.000 reais para escutar seu caso, você bate na porta do debaixo e fala isso para ele, o aproveitador vai ter que responder como qualquer pessoa. Goðar são mortais, políticos não.


Outra coisa é que goðar criam seu círculos… Poxa, você é amigão do goðar de baixo, ambos produzem leite de cabra e vocês sempre conversam, nas discussões do Althing, ele sempre leva seu problema, assim como o problema de todos que produzem leite de cabra, ele é tão legal que todos declararam seu apoio à ele. Mas um dia ele resolveu tirar vantagem de vocês… na hora você retira seu apoio à ele, isso levantará suspeitas e novamente ele irá parar perante o júri.

E se por acaso houver um assassinato no seu prédio? Olha que boa notícia: o julgamento não será feito só pelos seus goðar vizinhos, mas por 30 outros, vindo de diferentes prédios, que não terão opiniões pessoais no assunto!

Então, respondendo à pergunta: goðar não tiravam vantagens do povo porque eles tinham medo do povo, eles serviam ao povo, e lhe obedeciam. Nas palavras de adesivos de carro hoje: goðar não é profissão.

Muito obrigado pessoal, e espero que tenham gostado dessa pequena introdução ao chamado “Parlamento Islandês”, há muito mais sobre ele para aprender e discutir, é um assunto muito bem documentado e extremamente interessante, pelo menos para mim hahahahaha. Até à próxima, e lembre-se: se o

seu goðar fizer merda, retire seu apoio 😉 Sorry, não me aguentei, em ano de eleição essa piada era necessária ahahahahahhahaha.

Fontes:

Jesse Byock. “The Icelandic Althing: Dawn of Parliamentary Democracy.” In Heritage and
Identity: Shaping the Nations of the North, ed. J. M. Fladmark, pp 1-18. The Heyerdahl
Institute and Robert Gordon University. Donhead St. Mary, Shaftesbury: Donhead, 2002

 

Jesse Byock. “Feuding in Viking Age Iceland’s Great Village.” In Conflict in Medieval Europe: Changing
Perspectives on Society and Culture. Eds. Warren C. Brown and Piotr Górecki. Aldershot: Ashgate,
(2003),

http://historycollection.co/vikings-formed-worlds-oldest-existing-parliament/

Gabriel Vezzani
gabrielvezzani@gmail.com