As mulheres no Grande Exército Pagão (865 AD)

Ano de 865… Após diversas lutas contra pequenos bandos de incursões dos pagãos, o território inglês está mais uma vez sobre ameaça. Os povos germânicos que invadiram com sucesso as ilhas após a retirada de Roma viram que sua conquista podia lhe escapar por entre os dedos: o famoso “Great Heaten Army” (Grande exército pagão) aportou nas costas inglesas. Sua grande maioria era de dinamarqueses, mas com a presença também de noruegueses e suecos.

Era claro que esse não era mais um dos conhecidos ataques “hit-and-run”… não… eles tinham chegado com o objetivo de ficar… O rei da Anglia Ocidental percebeu isso, e logo negociou a paz: concedeu abrigo e cavalos aos recém chegados. Em 866 York já havia caído e era agora o “quartel-general” pagão. Na década de 870 Nortúmbria (caiu em 866-7), Anglia Ocidental (caiu em 869-70) e Mércia (caiu em 873-4)1 já haviam tido seus reis substituídos por “Reis Marionetes” que serviam aos interesses escandinavos. A colonização havia começado, já possuíam terras suficientes para isso.
Nos anos de 890 mais uma grande onda de pessoas chegou ao território inglês, não foi tão bem sucedido em conquistar novos territórios como o primeiro exército. Alfredo já havia contido a invasão inicial e travava uma guerra de reconquista.

As invasões pagãs são um assunto que cativam quem quer que seja, como os vikings, aquelas pessoas que foram estereotipadas como brutais e sanguinários perderam essa guerra, e qual foi o “aftermatch”. Sim, isso tudo é interessante demais, e poderíamos discutir sobre isso por dias. Quem sabe um dia eu ainda escreva sobre mais extensivamente sobre isso, no entanto, hoje quero trazer à vocês uma análise mais enquadrada sobre o assunto, o foco é tão interessante quanto: Proporção de Homens/Mulheres escandinavos durante as invasões da Inglaterra.

O artigo sobre o qual vou tecer o fio condutor da discussão é Warriors and women: the sex ratio of: Norse migrants to eastern England up to 900  de Shane McLeod.

Sempre que pensamos em guerra, principalmente medievais e anteriores, o que nos vêm na cabeça é uma horda de homens. Mas será que era isso mesmo? No mundo nórdico já há algumas provas de que mulheres também lutavam, como por exemplo a “Guerreira de Birka”. Vou discutir aqui, me baseando em McLeod, qual era a realidade das invasões. Alguns achados até podem ser considerados também como mulheres guerreiras.

Para discutir melhor o assunto, é preciso salientar uma característica dessa guerra: Não era uma invasão, uma retaliação, uma luta por poder, por dinheiro, por religião… não… era uma luta por terras, os nórdicos queriam morar nas casas saxãs, queriam colonizar. E você não coloniza um território só com homens ou com mulheres (claro, houve casamentos entre os povos, mas não o suficiente para isso). Sendo assim, é preciso que mulheres também estivessem ido.

Mas o que a arqueologia nos diz? Bom… primeiro: não há registro escrito de mulheres e crianças presentes nas primeiras invasões (chamarei aqui GHA “Great Heaten Army” o exército de 870’s, e de “890’s” a segunda leva), no entanto, esses registros existem quando se fala do exército de 890’s. Será mesmo que o GHA era composto por homens somente? Interessante, mas não devemos tomar um livro só como base histórica, esse detalhe precisa ser suportado por provas físicas, arqueológicas.

Numa das derrotas do exército de 890’s, um grande número de reféns foram levados à Londres, entre eles, um bom número de mulheres e crianças².
Antes de partir para ossadas, é possível tentar adquirir mais informações sobre o assunto de outras fontes… como por exemplo os nomes ingleses derivados do Old Norse. Hadley tentou isso, ao estudar o nome das famílias que vivem nas terras antes dominadas por dinamarqueses, encontrou mais de 400 nomes masculinos derivados do nórdico, e somente 16 femininos ³. Dado muito interessante, mas também não é conclusivo, afinal, é comum que o nome que passe para frente seja o do pai, sendo esses 16 as exceções que confirmam a regra

A biologia também é uma arma que pode ser usada para nos ajudar nessa questão. O DNA mitocondrial é passado somente pelo lado feminino, meu conhecimento nessa parte não é muito, no entanto, até onde eu sei, é o DNA que permanece nas mitocôndrias do óvulo quando ele é fecundado, e como a reprodução mitocondrial não é a mesma que a celular, não há mistura de DNA paterno e materno, sendo assim, ela se reproduz só no DNA materno. Uma pesquisa feita nas pessoas que hoje moram no que foi área nórdica mostrou que havia uma mulher nórdica para cada três homens (4). Lamento não poder dar-lhes mais informação sobre esse método, mas não vou arriscar falar merda (aliás, produção…posso falar a palavra “merda” aqui?). 3/1 seria então a proporção? Talvez.
Agora sim! Vamos falar de achados! De corpos mortos! Ossos em decomposição! Tecidos podres e metal comido pelo tempo!

Existem dois tipos de definir o sexo de um corpo: pelos artefatos, que vou chamar aqui de “grave goods”; e pela osteologia, que é o estudo mais à fundo dos ossos. Geralmente é usado a combinação dos dois, mas a osteologia tem mais poder de argumentação.

Vou começar aqui falando mais sobre a definição por grave goods… De modo geral, esse método aponta para uma maioria esmagadora de covas masculinas. Neil Price, que estudou os achados de Repton e Heath Wood (Inglaterra Central), locais de acampamento  GHA no inverno de 870-871, dos 284 corpos lá encontrados (alguns podem ter sido Saxões enterrados lá um pouco antes, visto que foi um cemitério saxão antes da chegada dos dinamarqueses (5)) 82% eram homens(6), isso é, 41 corpos de 50 eram homens. 41/9. Muito homem certo? Sim… homem demais.

Uma das teorias para explicar esses números é de que as mulheres nórdicas não estavam no acampamento, mas sim nas áreas já dominadas, a Nortúmbria estava totalmente segura nessa época. O que faz muito sentido… afinal, eles não podiam conquistar as terras e deixar elas vazias… sem produzir… E mesmo nas suas terras natais, as mulheres escandinavas já geriam as fazendas. Essa teoria é suportada pela grande quantidade de achados de jóias femininas de característica nórdica encontradas na cidade de Lincolnshire (112km à leste de Repton), a pesquisadora Caroline Peterson achou mais de 485 peças de indumentária feminina (7), o que pode evidenciar um grande número de mulheres em outro local. Esse grande número de jóias é encontrada por toda Danelaw, a parte inglesa dominada pelos nórdicos.

Por outro lado, há pessoas que não entendem essa grande presença de indumentária feminina como sinal concreto de que as mulheres estavam presentes. Afinal, mesmo que cheguem só homens, eles precisam se casar, e não era possível fazer tudo na base na força… não se ergue um reino na base do estupro, é preciso casamento. Penelope Walton sugere que esses achados tenham vindo com os homens como presentes para garantir mulheres na nova terra. O que também me parece fazer muito sentido.


A quantidade de homens encontrados (usando o método de comparar os grave goods) é tão superior às mulheres, que a maioria das vezes nem se discute o sexo da cova quando se é datado de antes dos anos 900, sempre se toma como base o homem. 6 corpos somente foram discutidos sobre seu sexo, e eles estão apresentados na tabela abaixo, retirada do texto de McLeod.

Essas foram as únicas seis covas cujo o sexo foi discutido e que tem característica nórdica de sepultamento (alguns enterros sob morros, outros com muitos achados. É importante salientar que o “M” é de “Masculine”, não de “Mulher”. Como dá para ver, todos foram definidos como homens, o único que está em dúvida é o número 4, pois possuí uma espada e um broche oval, usado nos vestidos nórdicos, e cujo foram achados mais de 4000 pares na escandinávia. Impressionante não? Excluindo a dúvida da cova 4, a proporção é exatamente de 100% homens.
Agora é que fica interessante… A tabela 2 do mesmo texto nos mostra os 14 corpos que tiveram seu sexo definido por osteologia.

*Ambas as tabelas usaram covas que foram CONCRETAMENTE definidas como de origem nórdica*

Ráááá! E então? Com esse método a hegemonia da teoria de que “só homens invadiram a Inglaterra” é abalada! Antes de tudo vou falar rapidinho como a osteologia funciona. Como o nome já diz, é o estudo dos ossos, homens e mulheres são biologicamente diferentes, inclusive nossos esqueletos, inúmeros detalhes são passíveis de serem observados, angulação do quadril, largura do quadril, abertura na pelvis, e até o crânio (embora a análise craniana seja menos confiável, visto que uma mulher de idade tem as características cranianas mais próximas de um homem).

Crânio de uma guerreira do Grande Exército Viking, encontrado em Repton, na Inglaterra. Foto: Cat Jarman / Bristol University

Muito mais confiável do que olhar e falar: “tem uma espada, é macho”, a única restrição é que alguns ossos devem estar preservados, por isso não é possível de ser feito sempre.

Voltando à tabela: a primeira coisa para se chamar à atenção é a quantidade de “F” (“feminine” em inglês). 6 mulheres para 7 homens (excluindo a dúvida), quase 50/50. Essa é uma visão que nunca antes foi sequer sugerida! Uma quantidade tão grande de mulheres presentes no GHA e nas invasões de 890’s!

Outra coisa incrível é o seguinte… olhem com o que o corpo foi achado… das 6 mulheres, duas foram encontradas com espadas, uma com bossas de escudos (DUAS!!!), outra com prego, e uma até com machados e saxes (sim, no plural). Essa informação, levanta a dúvida de se essas mulheres usaram as espadas ou foi algo ritual, mas não vou entrar nesse mérito agora, só é preciso dizer que essa informação coloca em cheque a tabela 1, literalmente todos os corpos ali podem ser mulheres.
Mesmo que a tabela 1 esteja totalmente correta, ainda teríamos 6 (ou 7) mulheres para 19 (ou 20) corpos, quase um terço de mulheres.

Mais um dado importante a osteologia pode nos conferir é o fato de que, mesmo corpos de 873-4, ou seja, a primeira onda de invasões, as mulheres já estavam presentes, mostrando assim o quão incompleta são as informações escritas que temos, pois não há registros de mulheres nessa época, como dito anteriormente, muito pelo contrário, mostra como, desde o início, as mulheres já estavam presentes.
No que diz respeito às crianças, a osteologia também mostra detalhes interessantes. Na tabela 2, há dois homens encontrados em Sonning, eles foram datados de 870, e um deles tinha 18 anos, o que sugere que tenha chego junto com os outros, em 865, ainda com 12 anos.

 

CONCLUSÃO

 

Embora a osteologia pareça ter abalado as teorias anteriores de que homens formaram a grande massa das invasões escandinavas, e nos mostrado que até 50% dessa população possa ter sido composta de mulheres. A amostra (14 corpos) ainda é muito pequena para poder afirmar com certeza sobre isso. Mas ainda sim mostra que a nossa concepção pode estar errada, e também que armas não são brinquedos só de homens, mulheres também eram enterradas com elas. Agora que temos essa tecnologia, com os passar dos anos vamos ter mais e mais estudos osteológicos sobre o assunto, e novas teorias surgirão. Essa é a beleza da ciência.

Mas antes de ir, gostaria de levantar mais uma questão social. O grande número de mulheres que podiam estar presentes (eu, pessoalmente, aceito a teoria de 50/50), isso gera algumas consequências.

  1. Homens não precisavam desesperadamente se casar com mulheres locais, diminuindo a integração.
  2. Não eram só homens que se casavam com as locais, com um número tão grande de mulheres escandinavas, é possível que elas tenham se casado com os locais.
  3. Era uma época de guerra, viúvas foram feitas em grandes números, imagino que não fosse incomum uma mulher vir com seu esposo para as novas terras e ele falecer numa parede de escudo. O que reforça ainda mais o item 2.

 

É isso pessoal, obrigado pela leitura e espero que tenha sido algo agradável e fácil de se ler, se ficou confuso, peço desculpas, o assunto foi tão “WOWW, UAU, GOD, MEEEO DEUS” para mim que foi difícil colocar em uma sequência lógica de letras.


Referências dentro do texto:

¹ ASC 867, 870, 874: Anglo-Saxon Chronicle, ed. Swanton, pp. 68, 70, 72 (trans.)

² ASC 894: Anglo-Saxon Chronicle, ed. Swanton, pp. 86–7 (trans.).

³ Hadley, The Vikings in England, p. 83

Sykes, Blood of the Isles, pp. 286

5 J. Graham-Campbell, ‘The Archaeology of the ‘Great Army’ (865–79)

6 M. Biddle and B. Kjølbye-Biddle, ‘Repton and the “Great Heathen Army”, 873–4

7  Kershaw, ‘Culture and Gender in the Danelaw

Leitura extra sobre o assunto:

Shane McLeod. Warriors and women: the sex ratio of Norse migrants to eastern England up to 900 ad

ed. Swanton. Anglo-Saxon Chronicle

Hadley. The Vikings in England,

Jesch, Women in the Viking Age

Kershaw, ‘Culture and Gender in the Danelaw’

Biddle and Kjølbye-Biddle, ‘Repton and the Great Heathen Army’

 

Gabriel Vezzani
gabrielvezzani@gmail.com