Fim da Era Viking: a história por trás do corpo de Skjoldehamn

Foto de capa tirada pelos membros do Marobud, no museu de Tromsø.

O ano é 1936, na ilha de Andøya, Noruega, um fazendeiro está coletando turfa (solo de pântano que depois será seco e usado como combustível nas fogueiras), muita turfa é necessária para sobreviver ao cruel inverno do norte da Noruega, e Rikart Olsen sabia disso… Ele estava sistematicamente coletando a turfa, linha após linha, até chegar 80cm abaixo do solo, quando ele sentiu que sua pá cortou algo estranho, evidentemente, um pé humano.


Localização da ilha de Andøya. Google Maps

O solo de pântano é muito bom para preservar materiais orgânicos, é de característica ácida e pouco oxigênio, o que pode até mumificar, nas condições adequadas. Outros grandes achados, como o de Bocksten, foram feitos em pântano, e o estado de conservação é, geralmente, muito bom.

Combinando as características do solo, com o brutal frio que assola aquela região do mundo, até o cérebro do corpo ainda estava presente, saindo pelas rachaduras do crânio. Obviamente que ele foi levado à polícia, quando foi decidido que não era um assassinato recente, foi ordenado que o corpo fosse re-enterrado no cemitério do vilarejo, no entanto o fazendeiro Hans Liavik acreditou ser uma boa ideia não dar um enterro cristão para o corpo, visto que não era um morto contemporâneo (embora o cristianismo tenha chego na escandinávia há séculos, pequenos vilarejos no meio da neve demoraram muito mais para se cristianizar, e mesmo hoje, mantêm alguns dos antigos costumes), e o levou para sua fazendo onde o enterrou.

Felizmente ele também teve a ideia de contatar o museu de Tromsø, onde o professor Gutrom Gjessing recebeu a carta e decidiu que iria olhar o local, logo depois do inverno passar, mas pediu para que Hans lhe enviasse o corpo por correio. Sim… isso mesmo… um corpo de idade indefinida (no início acreditava-se ser do sécudo XIX) por correio… Deu certo, o corpo chegou até Gjessing, mas já não se encontrava nas perfeitas condições em que foi achado: os ossos estavam em farelos, e o tecido mole, todo decomposto (finalmente um correio pior que o Brasileiro!). Uma pena… talvez hoje soubéssemos mais sobre o corpo se Gjessing tivesse ido ao local mais cedo…

Bom, é ai que, para mim, começa a parte mais excitante desse achado: a dubiedade do mesmo.

Embora tenha sido datado como do século XIX de início, essa datação logo caiu, e o corpo foi entendido como do final da era Viking, segunda metade do século XI. O primeiro homem à descrever academicamente o achado foi o próprio Gjessing, em 1938. A dúvida central era se o corpo era de uma pessoa Sami, os povos que habitavam o norte da Europa, da Noruega até a Rússia, e que, com muitíssimas aspas, são os “índios nórdicos”, ou se era de um norueguês da era Viking.

Povo Sami (1900)

Gjessing descartou logo de cara a possibilidade de que o achado fosse Sami, por um detalhe: meias… O corpo que foi encontrado em Skjoldehamn estava usando meias e sapatos, isso não era característica dos Sami

INTERROMPEMOS A PROGRAMAÇÃO PARA MOSTRAR FOTOS DAS ROUPAS ENCONTRADAS.

Overtunic (kirtle) e calça. Foto: tirada por membros do Marobud no museu de Tromsø

Overtunic, ou kirtle, o tecido encontrado sobre o tecido moderno.

Calça, o tecido encontrado sobre tecido moderno, da possível reconstrução.

Capuz, com fitas laterais para prender mais firme na cabeça.

Cinto. Imagem retirada da tese de Løvlid.

Fragmentos da meia. Imagem retirada da tese de Løvlid.

Camisa (skjortle). Foto: tida pelo Marobud no museu de Tromso

Reconstrução da roupa. Foto: tirada pelo Marobud no Museu de Tromso

VOLTAMOS COM A PROGRAMAÇÃO.

Recomendo que um pouco de tempo seja gasto olhando essas belas imagens, o resto do texto será de mais fácil entendimento.

Gjessing usou o presença de meias como carro chefe do seu argumento de negação à cultura Sami, no entanto, ele colocou outras cartas na mesa. Para ele, o esqueleto pertenceu à um homem, pelo fato de estar usando calças (as mulheres norueguesas usavam vestido), e as túnicas masculinas dos Sami possuíam um alto colarinho, na falta dele, era mais um argumento de que a origem do corpo era norueguesa.

Acentuado colarinho, característica dos homens Sami

Outro ponto chave seria os triângulos costurados à túnica, que são muito comum em túnicas pelo mundo à fora, eles são usados para aumentar a roupa em partes específicas, sem precisar ter que aumentar tudo. A base do triângulo fica na bainha, concedendo mais liberdade para as pernas.. Para Gjessing, o povo Sami costurava seus triângulos na parte de trás das suas túnicas, diferente da túnica encontrada em Skjoldehamn, que possui quatro triângulos, um em cada lateral, um na frente, e um atrás.

A camisa, ou skjortle (termo cunhado pelo prórpio Gjessing) era, para ele, mais uma evidência de que o corpo era norueguês, afinal, os Sami não possuíam camisas, usavam duas túnicas já que as terras onde habitavam eram extremamente geladas.

No entanto… aconteceu com Gjessing o que todo cientista deve desejar… outro pesquisador, mais jovem, com mais recursos, e com uma nova visão, veio discutir seu trabalho, olhar para as evidências e pensar novamente. Hoje, embora Gjessing vá para sempre ser lembrado quando se fala de Skjoldehamn, afinal, ele que descreveu tudo, o pesquisador Dan Halvard Løvlid é hoje a referência no assunto.

Em 2009 ele escreveu sua tese de mestrado em arqueologia, intitulada “Nye tanker om Skjoldehamnfunnet” pela Universitetet i Bergen, a qual ele discute com as ideias de Gjessing, infelizmente ela se encontra em Norueguês, assim como as descrições oficiais, no entanto há um resumo que foi traduzido ao ingles: “The Skjoldehamn find in the light of new knowledge: A discussion of the burial, the ethnic affiliation of the outfit, and the person’s gender and social status”.

Voltemos agora aos pontos que Gjessing usou para afirmar a origem do corpo.

 

  • Meias. Há achados de corpos Sami com meias, inclusive de Nalbinding, método escandinavo de “tricotar” fios de lã, dos seis corpos encontrados no sítio Jukkasjärvi, quatro tinham meias de Nalbinding e um possuía meias de linho. No entanto é fato que não há nenhum achado com meias e sapatos. Mas isso não é suficiente para resolver o debate sobre a etnicidade
  • Colarinho. Embora os Sami de hoje realmente segregem o uso de altos colarinhos para os homens, é difícil saber se o faziam em 1050. Mesmo que o fizessem, a afirmação de que falta um colarinho toma como base a possibilidade do esqueleto ser homem, algo que, para Gjessing era claro, pois ele estava de calças. Mas Løvlid chama a atenção para o fato de que, entre os Sami, o uso de calças não é segregado, ambos os sexos usam. Ou seja, se o esqueleto não for norueguês, as calças não nos ajudam à definir se era homem ou mulher
  • Triângulos. Esse, para Løvlid, foi um argumento extremamente fraco por parte de Gjessing, não só pelo fato de reduzir um povo inteiro à poucas características, mas também pelo fato de reduzir um povo inteiro à características erradas. No mesmo sítio que comentei sobre as meias, a igreja de Jukkasjärvi, uma das mulheres possuí a túnica com os triângulos laterais, um frontal e um na parte de trás. Outro corpo, possuí, além dos laterais, dois na frente e um atrás. Novamente, outro argumento fraco.
  • Camisa. Para Løvlid esse argumento de Gjessing chega à ser cômico… Sim… os Sami nunca usaram camisas, somente duas túnicas de lã, e as vezes, casacos de pele. Mas foi Gjessing que inventou o termo Skjortle para a “camisa de Skjoldehamn”, mas o que seria ela se não uma túnica? Se chamarmos ela de túnica, passa à ser condizente com os Sami.

 

 

Embora Løvlid questione os argumentos de Gjessing, ele não quer dar a resposta definitiva para a questão, mas sim, repensar o que foi dito, e levantar novos questionamentos, mais bem direcionados. Existem, para ele, alguns pontos centrais na discussão sobre a etnicidade do corpo de Skjoldehamn, são eles: Skjortle, calça, cinto, sapatos e amarrações de tornozelo. Discutirei aqui cada um deles, sempre me baseando em Løvlid e seu texto.

 

A camisa, ou Skjortle, se quisermos usar a denominação de Gjessing, não tem precedentes, de fato na cultura Sami, a aba no pescoço não está presente em nenhum achado da cultura, mas está fortemente presente na indumentária dos noruegueses, os pescadores usam camisas com esse corte, a aba tem uma característica essencial: proteção extra para o peito quando está muito frio.

Close na aba presente no pescoço da camisa de Skjoldehamn

Por sua vez, a aba de Skjoldehamn, embora muitíssimo parecida com a dos pescadores, não parece ter uma função somente prática, ela foi feita para ser usada em conjunto com a kirtle, a overtunic, pois a gola em V evidência a aba da túnica de baixo. Løvlid vê novamente uma mistura étnica, visto que as golas em V dos Sami eram muito acentuadas, era comum que a roupa vestida por baixo fosse também enfeitada, como essa gola, que está em posse do Norsk Folkemuseum.

Gola que era usada por baixo da kirtle Sami, enfeitando a gola V.

 

A calça encontrada no corpo de Skjoldehamn é de grande interesse, porque ela é bem característica. Quando falamos de calça, duas partes dela são de importante análise: os fundilhos e a bainha. No que diz respeito aos fundilhos, é difícil afirmar qualquer coisa sobre Skjoldehamn, afinal, eles não foram encontrados, mas os estudo informam que é possível terem sido somente duas peças de tecido.

Foto retirada da tese de Lovlid

Agora é que fica interessante… as bainhas de Skjoldehamn chamam muito a atenção, pois os enfeites não foram encontrados em calças Sami, calças de lã eram enfeitadas com pontos de cor diferente, isso se tivessem algum tipo de enfeite. Somente as calças de pele tinham algum tipo de enfeite maior nas bainhas. E o padrão de tecelagem das bainhas de Skjoldehamn são norueguesas, mas isso não nos fala muito, visto que os Sami não eram um povo produtor de tecidos, eram todos importados, em sua grandíssima maioria, dos noruegueses (sim, todos os tecidos de Skjoldehamn também são de origem norueguesa, o que exlcui a necessidade de evidenciar que o cobertor achado não ajuda muito em definir a etnicidade, visto que é todo feito por noruegueses).

Bainhas de Skjoldehamn. Foto tirada pelo grupo Marobud no museu de Trømso.

 

Agora discutiremos sobre o cinto, na minha opinião pessoal, a parte mais  incrível do conjunto, com mais detalhes impressionantes.

Cinto de Skjoldehamn. Foto retirada da tese de Løvlid

Esse cinto é na verdade uma grande trança, foram usados 12 pares de fios para o fazer, esse método era possível de ser feito com weaving viking, já no Sami… Esse povo usava dois tipos de cinto: liso e trançado. Os cintos lisos, eram em sua maioria feitos de uma peça cortada de tecido ou couro, com algumas emendas. Agora os trançados, nessa categoria o de Skjoldehamn se encaixa, esses eram feitos exclusivamente em couro ou tendão, como os três encontrados em Östansjö, Arvidsjaur na Suécia, ou seja, dentre os cintos trançados, Skjoldehamn é único, pois não é feito de couro. Suas tranças nas pontas também são sem precedentes, muitos possuem, mas o seu é diferente de todos, pelo número de pontas, cores diferentes e modo de amarração. Mas, ao meu ver, essa não é uma característica muito reveladora sobre a origem.

Mais uma outra importante marca de se evidenciar aqui é o nó que existe no meio do cinto de Skjoldehamn… embora ele seja comum entre os Sami, não houve outro cinto que mostrou evidências de uso no nó, ou seja, algo pendurado nele, um pouch, uma colher, o que for.

Essa parte em específico do achado me é encantadora justamente por ser um método de fabricação viking, mas com o padrão Sami.

 

Sobre o sapato, bem… essa parte pode decepcionar algumas pessoas, ou prover respostas muito procuradas (como ocorreu no meu caso): é impossível dizer qualquer coisa sobre o mesmo… o seu estado de conservação era tão ruim que nada restou para estudar, somente que sua sola era dividida em dois.

 

As amarrações de tornozelo encontradas em Skjoldehamn tem também seu charme. Elas foram feitas em tablet weaving, técnica não utilizada pelos Sami, no entanto muito presente nos territórios viking. Além de serem produzidas fora, nenhum outro corpo Sami foi encontrado com tiras amarradas no tornozelo.

Foto retirada da tese de Lovlid

Bom, essas são algumas das coisas que temos que pensar ao analisar as vestimentas de Skjoldehamn, e, como vocês viram, elas também são em si bem confusas, não dão um norte preciso, talvez por isso sejam tão interessantes. Mas outra discussão também ronda esse achado… Classe social e sexo. Mas essa discussão é rápida, visto que não é possível fazer afirmações incisivas.

Quando falamos sobre a classe social de Skjoldehamn, é entendido que fosse uma pessoa de boa vida, não um Sílvio Santos da vida, mas alguém que conseguiu viver bem, e colocar um anel de prata em sua roupa (o anel para prender a aba da skjortle era de prata), mas que, ao mesmo tempo, fez sua roupa de maneira não simétrica (a skjortle possui três triângulos de um lado, e dois de outro) o que sugere economia de tecido, e a usou de maneira muito frequente, afinal, a skjortle tem marca de muito uso.

Sobre o sexo… isso é difícil de afirmar, pois seria necessário saber a etnicidade do sujeito. Mas se for norueguês, era, sem sombra de dúvida um homem, visto que as mulheres norueguesas não usavam calças. Mas se for Sami… é impossível dizer. Em 1999, Götherstrom fez um teste de DNA no corpo, e não encontrou o cromossomo Y, presente em todos os homens… ou seja, era uma mulher Sami. No entanto, anos depois, ele afirmou que a tecnologia na época não era avançada o suficiente para testar com precisão um achado daqueles. E a questão ficou sem resposta novamente.
Quando Gjessing descreveu o corpo, rapidamente o classificou como norueguês, mas vale lembrar que anos depois, foi revelada uma carta sua para Agnes Geijerem, em dezembro de 1938, que dizia exatamente essas palavras: “o meu conhecimento sobre os Sami é extremamente limitado” (Gjessing 1938b:2)

 

Considerações finais:

 

Embora essa discussão sobre a etnicidade do corpo de Skjoldehamn tenha dado (e, acredito, vai continuar dando) muitíssimos frutos, ao meu ver, não conseguiremos dar uma resposta definitiva para a questão, não por falta de tecnologia, não… Mas porque Skjoldehamn aborda um tema muito mais antropológico, ele era um sujeito de fronteiro, um indivíduo híbrido, que podia estar “aqui” e “lá”, que provavelmente caminhou nos dois mundos… Pense assim: um embaixador francês que mora no Brasil há 20 anos, come feijoada todo domingo, usa regata e havaina quando está quente, mas trabalha só com ternos franceses, e em jantares importantes leva um vinho da sua terra e come um bom queijo francês… essa pessoa é o que? Brasileira ou francesa? Não abordêmos a questão legal, porque não havia estado como conhecemos hoje no norte da Noruega. Não sabemos, talvez se perguntássemos ao embaixador ele falasse “sou francês” ou “mas é claro que sou brasileiro!”, essa é a única saída para a questão. Mas infelizmente não temos como questionar o corpo de Skjoldehamn sobre o assunto.

O que nos resta é analisar e apreciar esse incrível e dúbio achado, sem nos preocupar em dar respostas precisas sobre sua etnicidade, mas em aprender sobre esses sujeitos presentes em dois mundos, algo tão comum hoje em dia, mas que pouco paramos para pensar.

Outros artigos para consulta:

Løvlid, Dan Halvard.  2010. The Skjoldehamn find in the light of new knowledge: A discussion of the burial, the ethnic affiliation of the outfit, and the person’s gender and social status. On: http://www.ceilingpress.com/Resources/SkjoldehamnFindInLightofNewKnowledge.pdf

Løvlid, Dan Halvard.  2009. Nye tanker om Skjoldehamnfunnet. On: http://www.ceilingpress.com/Resources/Nye%20tanker%20om%20Skjoldehamnfunnet.pdf

Gjessing, Gutorm 1938a: Skjoldehamndrakten. En senmiddelaldersk nordnorsk mannsdrakt

Lady Elska á Fjárfelli, 2016. A Viking Belt based on the Skjoldehamn Find https://www.academia.edu/27845585/A_Viking_Belt_based_on_the_Skjoldehamn_Find

https://maniacalmedievalist.wordpress.com/2016/06/14/skjoldehamn-find-project-finding-the-body/

 

Gabriel Vezzani
gabrielvezzani@gmail.com
  • Bernardo Lepore

    Excelente texto! Provavelmente é o melhor escrito em português sobre o achado de Skjoldehamn. Parabéns pela pesquisa e compilação das informações, Gabriel.

    • Gabriel Vezzani

      Muito obrigado!

  • Luh Azevedo

    Excelente texto ! Escreva mais! <3 Precisamos disso no Brasil

    • Gabriel Vezzani

      Obrigado! Vou sim! Já estou planejando o próximo!

      • Luh Azevedo

        Só queria dizer mais uma coisa: seja homem ou mulher, ele(a) era de HUMANAS. Vide as fitinhas amarradas no calcanhar iguais as minhas.

        • Luh Azevedo

          Hail Miçangas!