O guerreiro de Birka era uma mulher

Estamos habituados com estórias de mulheres guerreiras contadas em narrativas e representadas em peças de arte. Também sempre nos atraiu as personagens de quadrinhos, filmes e séries inspiradas em líderes de guerra como a rainha celta Boudicca. Porém, todas essas personalidades são vistas como elementos mitológicos e nunca foi provado que as mulheres lutaram ao lado dos homens.

Na última semana, dia 8 de setembro, o Conselho de Pesquisa Sueco publicou um artigo que balançou arqueólogos, historiadores e antropólogos, declarando que o esqueleto do guerreiro viking encontrado no final do século XIX na região de Birka, Suécia, e afirmado como restos mortais de um homem com importante posição de guerra, na verdade, é de uma mulher.

A confirmação foi feita através do estudo do DNA deste esqueleto e seu resultado revelou a falta do cromossomo Y e características muito parecidas com dos europeus atuais da região da Suécia. Mas ainda não é correto afirmar se esta mulher era pertencente ao local que fora encontrada.

 

Ilustração: Þórhallur Þráinsson (copyright: Neil Price)

 

Os pesquisadores passaram mais de um século afirmando o sexo do guerreiro como masculino por encontrarem em seu sepulcro, dois cavalos (sendo uma égua e um garanhão) e diversos itens de combate, tais como: uma espada, um machado, uma lança, flechas de armadura, uma faca de batalha, dois escudos e ainda, em seu colo, um jogo de tabuleiro muito usado para estratégias e táticas de guerra, o que abre para discussões sobre o posicionamento desta mulher não apenas como guerreira e sim como uma líder.

Mapa que mostra a localização de Birka e do túmulo

 

Era muito comum homens e mulheres serem enterrados com seus pertences e os túmulos de guerreiros eram preparados com seus equipamentos de acordo com seu posicionamento na sociedade. Mas apesar de terem encontrado outros sepulcros femininos com armas, nada desta grandeza foi descoberto e a discussão entre pesquisadores é grande e cheia de suposições. Alguns afirmam que a mulher poderia ter sido enterrada com pertences de um membro da família, outros relatam que por não haver evidências de grandes ferimentos ela não poderia ser uma guerreira ou até mesmo que os itens podem ter sido meros objetos simbólicos. A verdade é que – ao contrário do que fizeram na primeira vez ao afirmar, sem testes, que o túmulo era de um homem – ninguém pode dizer que, de fato, a mulher era uma guerreira ou líder de guerra. Até porquê isso conflitaria com a visão que temos do passado escandinavo e sua estrutura patriarcal. Mas também não podemos negar a grandeza dessa descoberta que nos traz uma nova compreensão da sociedade viking, suas normas e suas construções sociais. E ainda trazemos à tona a riqueza dos registros históricos das mulheres guerreiras presentes na literatura medieval antes descartadas e classificadas apenas como mitologia.

 

“Então a princesa nascida viu-os jogar o jogo ferido ,

ela resolveu um curso difícil e tirou o manto;

ela pegou uma espada nua e lutou pela vida de seus parentes ,

ela estava à disposição para lutar, onde quer que ela apontasse seus golpes .”

Atlakviða O Canto de Atli (Edda Poética )

Leia o artigo na íntegra.

 

Luana de Azevedo
luana.azevedoo@gmail.com

Publicitária, Fotógrafa e Storyteller.