O povo Sami e minha experiência no xamanismo nórdico

Faz bastante tempo que tento parar para escrever sobre o povo Sami e suas práticas espirituais no xamanismo. Mas sabe quando você lê muito, sobre diversos pontos de vista acadêmicos e quanto mais lê, menos você sabe? Eu estava com essa sensação de afastamento à cada artigo novo, cada pesquisa e fotografia que encontrava deles. Algo de peculiar vibrava ali, mistério, segredo. Alguma coisa que nenhum pesquisador falou em seus textos parecia oculta e importante para se mostrar. Eu e Gabriel decidimos há algumas semanas atrás, oferecer uma oficina de confecção de tambores como uma boa desculpa para falar desse povo que tem nos fascinado nos últimos meses. Eis que na semana do workshop, no dia anterior, resolvi ter a ousadia de tocar o tambor como eles faziam ou como um xamã costuma tocar, e então, um véu caiu e o oculto veio à tona.

Pouco se sabe sobre a origem sami, o registro mais antigo que temos é de 98 a.C., uma publicação do senador e historiador romano Publius Cornelius Tacitus, chamada Germania, onde ele fala de um povo associado aos Fennis, que vivia no extremo norte da europa, numa região conectada à Noruega, Suécia, Finlândia e um pedaço da Rússia. Estudos apontam uma datagem de 4 mil anos antes de Cristo, mas desconfiamos que eles são bem mais antigos.

Sápmi – Região do Povo Sami

Eles falavam acerca de 11 dialetos (hoje 9 dialetos permanecem vivos) até o século XV e sua cultura permaneceu intacta até a chegada do cristianismo em suas terras geladas e a intervenção dos governantes dos países ao redor para que a cristianização acontecesse de maneira eficaz. Entre os séculos XII e XIII, as autoridades definiram que seus tambores eram objetos de superstição, usados para o mal e deveriam ser confiscados e queimados todos. Em alguns casos, os donos dos tambores eram acusados de dotarem poderes divinatórios e então, eram executados na corte. Tambores foram encontrados escondidos debaixo de pedras e enterrados, totalizando 70 instrumentos, e nos provando que este instrumento sagrado era mais importante para os samis que a intervenção da igreja e suas ameaças.

Governo norueguês estudando os tambores achados. Foto de 1945.

Os tambores encontrados, em sua grande maioria, possuem pinturas feitas com pó de casca de amoeiro e com desenhos que muito nos falam sobre a fé sami e sobre a história do seu povo, seu cotidiano de caça e pesca e principalmente sua relação com o plano espiritual, deuses, espíritos e seres mitológicos. Hoje, suas gravuras que eram temidas pela Igreja, se tornaram símbolos de identidade cultural gravados em tudo: de logomarcas de empresas à souvenirs de museus e aeroportos pela Escandinávia.

Tambor Sami com símbolo solar – Museu Sueco

 

Símbolos de tambor sami que representam a vida cotidiana e o plano espiritual

Para os samis, tudo dizia respeito à espiritualidade, portanto era de se esperar que seus tambores, os instrumentos que os levavam até os deuses, possuíssem menções às divindades. Em todo tambor sami, vemos a figura de um deus montado em um cavalo, este deus se chama Rota e ele governa o mundo dos mortos, mas não aquele mundo de Hades ou o inferno cristão. Rota governa um lugar melhor, onde seus antepassados vivem uma vida plena e verdadeira. Rota cavalga até o plano físico, onde os homens estão, para conectar o povo ao plano espiritual.

Representações do deus rota presentes nos tambores sami

Outros deuses são essenciais para a vida acontecer e entre eles estão Beive, o deus sol, mais importante e cultuado entre este povo que vivia a maior parte de suas vidas no inverno rigoroso do norte. Suas celebrações eram sempre feitas diante de uma fogueira, que trazia o calor que nutre para toda a comunidade. Leiabeolmmái é o deus da caça e das florestas, guardava os animais e permitia o homem à se alimentar deles. Bieggaolmmái é o deus do vento e levava as grandes tempestades para o alto das montanhas, para proteger os homens que ali habitavam. Horaggales, o deus trovão, o mais forte de todos, controlador do clima e da fertilidade. Máttaráhkka, a deusa mãe de três outras deusas: Sárahkká, Uksáhkka e Juoksáhkka. A deusa mãe recebia a alma do homem e criava seu corpo, para então dar para sua primeira filha Sárahkká, que preparava o útero para receber aquele espírito. Uksáhkká, a segunda filha, era a responsável por guardar as mulheres e crianças. Por fim, a terceira filha, Juoksáhkká era a deusa favorita das mulheres, pois ela tinha o poder de mudar o gênero da criança ainda dentro do útero e protegia os meninos até se tornarem adultos.

Mas enfim, eu falei tudo isso para você ter um panorama de quem foram os antigos samis, que um dia se conectaram com os escandinavos e levaram práticas xamânicas para eles em plena era viking, onde a galera de lá só pensava em sobreviver ao próximo inverno e atribuir riquezas nos saques e conquistas de novas terras. Mais um detalhe: não existe nenhum vestígio de guerra entre o povo sami e quando eles se encontravam com os vikings, o que faziam era trocar as peles de animais que eles tinham em abundância, por ferro, sal e moedas que eles só usavam pra fazer colares bonitos. Essa talvez seja a característica que mais me interessa nessa história e cultura. Porque todo povo antigo que estudamos, mesmo que eles tenham tido uma conexão forte com a espiritualidade, todos, e até mesmo os nossos indígenas, possuíam uma cultura de guerra muito enraizada. Disputavam entre si e com outros povos, buscavam a expansão territorial, exploravam a terra, os animais e os outros homens, eram humanos, queriam sobreviver e encontraram na luta, uma maneira de crescer e se manterem aquecidos.

Mas e daí? O que estava oculto e veio à tona?

Entrei no meu quarto, sentei confortavelmente na minha cama, peguei o meu tambor com a consciência do que sua estrutura simbolizava para os samis: o topo eram as divindades, o centro, onde seguro ele, era o homem e a parte interior do tambor, era o plano espiritual, o mundo onde os ancestrais vivem. Comecei a tocar o tambor em um ritmo calmo e contínuo, fechei os olhos e comecei a pensar nesse povo, busquei entender mais sobre eles e porque o tambor era tão importante mas eu não queria mais pensar sobre isso, buscar resposta na minha consciência, eu sabia que ela iria me enganar, trazer textos que eu já tinha lido, fotos que já tinha visto, então continuei tocando, tentando sentir na vibração daquele tambor, que parecia se conectar com todo o funcionamento do meu corpo, começando pelo meu coração, fazendo as mesmas batidas do tambor involuntariamente, passando pelo meu sistema nervoso, me trazendo calma e tranquilidade, meu sistema respiratório, transformando minha respiração geralmente conturbada pelas itis todas que tenho em uma respiração leve, profunda, que levava o ar para todas as minhas células, percorria meu corpo e jogava pra fora. Não sei quanto tempo isso durou, e a sensação que tive, ali de olhos fechados em um ritmo harmônico, era que tinha muita gente ali, de frente pra mim, em suas roupas coloridas e tambores feitos com ossos, peles, pelos, madeira, eles tocavam com uma fogueira no centro, junto comigo em um toque que acelerava. Me reuni à eles diante da fogueira, meu coração acompanhando a batida que acelerava e parecia fazer o fogo dançar, de uma forma suave e forte ao mesmo tempo. Naquele momento, que não faço mesmo ideia de quanto tempo durou, nada na vida física me importava mais. Eu poderia estar ali, batendo no tambor incansavelmente, porque sentia algo crescer no peito, uma espécie de felicidade sem euforia, a contemplação de algo grandioso que não dá pra explicar do que se trata, pois não haviam deuses e símbolos, não haviam cultos à ninguém, nem sacrifícios, o que havia era o calor de existir verdadeiramente, o silêncio em meio aos batuques, a sinergia, sintonia entre aqueles homens, mulheres, eu e o fogo como se nos conhecêssemos de longa data. O tambor e seu significado fez sentido, as falas dos xamãs contemporâneos fez sentido, quando dizem que ao tocar o tambor você se torna a montanha, o pássaro, a flor, a pessoa amada. O fato deles não buscarem a guerra fez sentido, o pedido de permissão ao animal antes de caçá-lo, o respeito, a troca, a cura das doenças e a tomada de decisão apenas em estados de contemplação como esses. Fez sentido o xamã dizer que o tambor conecta mundos, que permite uma viagem à um plano onde a vida acontece verdadeiramente. Até o termo “fazer sentido” passou a ter nova perspectiva. Porque ler sobre os samis e sobre as figuras em seus tambores me deixava fascinada para entender como aquilo os mantinham vivos e as explicações científicas e antropológicas são bastante convincentes, o suficiente para você dizer que os compreende. Mas experimentar toda essa viagem que acabei de descrever, preencheu o que me faltava: entender mais do que mentalmente e intelectualmente o que eles faziam, passar a sentir uma faísca de contemplação espiritual que os guiavam foi realmente profundo.

No dia seguinte dessa experiência, eu e Gabriel fizemos a oficina de tambores com um grupo de pessoas maravilhosas, que curiosamente eram totalmente opostos, de áreas e interesses diversos, porém atraídos pelos tambores também. Falamos sobre a história dos samis, sobre suas vidas atuais e influências culturais pelo mundo, ensinamos como fazer os tambores e cada um fez o seu. Mas se teve algo que foi importante ter dito no final foi que quando pudessem, que se permitissem sentir os seus tambores e ouvir o que eles têm a dizer. Independente de credo, religião ou segmento de pesquisa, mas pela honra à memória e significado que esse instrumento carrega.

Eu estava um tempo sem publicar nada, esse texto foi mais pessoal que qualquer um que eu já tenha escrito. Prometo escrever mais sobre assuntos diversos e espero te receber de novo aqui. O Gabriel também escreveu um texto interessante sobre um achado arqueológico do final da Era Viking de uma região próxima à Sápmi e que alguns acreditam ter sido de um Sami.

Obrigada por ter lido!  <3

Luh Azevedo
luana.azevedoo@gmail.com

Publicitária, Fotógrafa e Storyteller.

  • Erick Arisi Moura

    Obrigado por esse post. Eu também procuro estudar o xamanismo sami e me toca na alma coisas desse tipo. Aonde é a oficina de tambor?

    • Luh Azevedo

      Obrigada você por ter lido, Erick. Fico feliz de compartilhar essa experiência. A oficina é em Curitiba 🙂

  • Yara Roussille

    Fantástico texto Luh, e com certeza deve ter sido uma experiência única que vc sentiu naquele momento, o que te fez imergir de uma forma com a qual você pudesse passar às pessoas que estariam participando da oficina no dia seguinte uma experiência vivida, contribuindo com as leituras e pesquisas realizadas.
    Muito bom, e obrigada por compartilhar essa experiência e esse conhecimento de um povo que eu particularmente não conhecia.

    • Luh Azevedo

      Fico feliz que tenha gostado 🙂

  • Marcio Correia

    Ahow…..que belo trabalho. ..gratidão por compartilhar…