Causas da Era Viking: Novas teorias

Causas da Era Viking: Novas teorias

Nem só de mar calmo vive um barco, certo? Trouxe alguns assuntos para discutir com vocês que são mais de boa, curiosidades sobre assunto que, acredito, a maioria não tinha muito conhecimento. Mas hoje decidi trazer algo que pode ser mais polêmico que mamilos: outras teorias menos “mainstream” sobre o início da Era Viking.

 

Mas antes vou fazer um resumão simplificado aqui sobre o que chamamos de “Era Viking”, afinal, não posso comentar o que a causou sem antes discutir o que é… A data usada como padrão para o início desse período é 8 de Junho de 793, quando três barcos vikings invadiram a abadia de Lindisfarne (é importante notar que já existiam escandinavos atacando pequenos vilarejos antes dessa data, mas Lindisfarne foi o primeiro alvo notável). Para o fim da Era Viking, o ano de 1066 é o mais aceito, quando Harold III da Noruega foi derrotado em Stamford Bridge pelos saxões, no entanto essa data é diferente para os outros países, como Escócia e Irlanda, visto que cada país expulsou os escandinavos em datas diferentes, a Escócia por exemplo foi em meados do século 13.

 

Não gosto de me prender à datas, porque a história não é feita de períodos fechados, mas sim uma transição contínua, então sou partidário de entender os motivos o fim, ao invés de data-lo e colocar numa caixa fechada. Quando as incursões pararam de ser incentivadas pela sociedade, decorrência direta da cristianização da sociedade, que passou a ver tais atos como barbárie. E também como elas passaram a ter um caráter mais estatal, eram conduzidas por soberanos contra outros soberanos… guerra declarada, não mais pirataria, essa, para mim, é uma visão melhor do que “acabou em 1066”.

 

Peço desculpas por falar tão abreviadamente, mas prometo que irei fazer um post só com ênfase nisso!

 

Agora… se eu perguntasse à você “O que causou a Era Viking? Em 30 segundos”. Provavelmente a maioria das pessoas iria destacar três pontos:

  1. Tecnologia naval avançada, que possibilitava fazer o caminho Noruega-Irlanda em duas semanas.
  2. Fraqueza política e estrutural dos países insulares (Irlanda e Grã-Bretanha) e continentais da Europa.
  3.   Busca de riquezas materiais em locais com baixa proteção, igrejas, vilarejos, monastérios…

Acertei?

 

Bom… acho que está na hora de revisitar esses argumentos para ver se são realmente tão relevantes para causar o início da Era Viking como pensamos. É importante lembrar que uma causa tem que ser anterior ao ano de 793, por motivos óbvios de coerência.

 

Primeiro: de fato, os nórdicos faziam barcos surreais, incrivelmente rápidos, seguros (para os padrões) e rasos, permitindo que eles navegassem em rios que seus inimigos jamais pensariam! Mas há duas coisas que precisam ser ditas quanto à esse argumento… “causa” e “pré-requisito” são coisas totalmente diferentes, é claro que para um período como a Era Viking fosse possível, barcos de qualidade se faziam necessários, mas isso não o torna uma causa, não foi porque descobriram como fazer um barco eficiente que eles falaram: “partiu saquear umas igrejas naquela ilha lá longe!” Não…

 

Outra questão é… será mesmo que foram só os nórdicos do fim do século oitavo que foram capazes de navegar eficientemente? A tecnologia de navegação de longo alcance é anterior à Era Viking, os navios germânicos da época já tinham boa capacidade de viagem, e até mesmo navios escandinavos anteriores ao século oitavo eram de boa qualidade, bons o suficiente para chegar à Inglaterra. O que pode ter mudado é a utilização da tecnologia, mas isso não muda o fato de que ela não foi uma causa, sim um pré-requisito.

 

Sobre o ponto número dois… Essa é uma resposta muito comum também: “aaaa os nórdicos aproveitaram a fragilidade dos governos europeus vizinhos para causar o caos e saquear!”. É uma ideia interessante… mas as datas não batem: na parte continental da Europa, esse era o auge do império de Carlos Magno (768-814 AC), e, ele era tudo, menos fraco, um imperador que recebeu o título de “Pai da Europa” certamente não era um alvo atraente para um bando de fazendeiros.

 

Na parte sul da Inglaterra, reis como Offa da Mércia (757-796) estava no poder, e seus reinados eram bem estáveis. Ao norte da ilha, o poder era tão descentralizado, que podemos resumir à pequenos chefes lutando incessantemente por pequenos lotes de terra, uma situação muito parecida com a Escandinávia da época, então porque arriscar uma viagem de barco para encontrar algo que tem no seu quintal? Afinal, nem menos perigosos eles eram… entrar em guerra contra Carlos Magno era tão ruim quanto se envolver na infinidade de guerras e alianças da Escócia.

 

Concordo plenamente que os governos depois se fragmentaram e enfraqueceram muito, mas isso foi durante a Era Viking, e não antes, sendo assim, pode até ser uma consequência, mas não causa.

 

Aaaaaagora sim! Finalmente chegamos no ponto sobre aquisição de riquezas… lembra que falei que esse texto seria um tanto polêmico? Então, é por aqui que ele começa a ficar interessante! Os nórdicos saíram de suas terras frias em busca de riquezas? Fato, mas é um fato muito raso. “Buscar riquezas” não pode ser definido como causa, é preciso saber o que gerou essa demanda de ouro e prata.

 

É sabido que a maioria dos metais preciosos roubados da Inglaterra tiveram seu fim em covas femininas na Escandinávia. Sim, mulheres também participavam das incursões (como eu explico nesse texto), mas o que fez com que as jóias em sua maioria fossem parar em suas covas? Simples: foram dadas pelos homens que as roubaram. Sim ué… todo animal faz isso, é um ritual de acasalamento…. há pássaros que constroem seus ninhos só de materiais azuis, outros que dançam, alguns tem uma cauda exuberante, outros animais invadem o vizinho e roubam coisas deles para dar ao sexo oposto, na tentativa de acasalar.

 

Podemos entender então como a demografia escandinava foi um dos fatores centrais para que a Era Viking tivesse início… homens eram em um número muito maior, havia uma disparidade sexual na segunda metade do século oitavo, há somente duas explicações para isso:

  1. Azar biológico, por algum motivo mais fetos foram fecundados como homens;
  2. Seleção humana, bebês do sexo feminino eram mortos sistematicamente, isso não é algo novo, na China atual as coisas ainda são assim. Essa foi a teoria proposta em 1998 por Wicker, em seu capítulo “Selective female infanticide as partial explanation for the dearth of women in Viking Age Scandinavia,“ no livro “Violence and society in the Early Medieval West” (vou disponibilizar o link para leitura desse capítulo no final). Talvez isso tenha chocado vocês tanto quanto me chocou…

 

Uma vez que não havia mulheres o suficiente para que formar casais com todos os homens, então a disputa matrimonial se acirrou… o nórdico precisava mostrar que era melhor que a maioria se quisesse ter a chance de montar sua casa e família. E como fazer isso? Se tornando rico e mostrando sua coragem, ou seja, nada melhor então do que entrar num navio, sem saber se irá voltar, e chegar num local que tem um monte de riquezas para trazer à sua terra natal, se tornando assim uma pessoa digna, e por conseguinte, conseguir formar uma família e passar seus genes à frente. Muitos ainda conseguiram se alçar à chefes locais com as incursões, se tornando ainda mais dignos.

 

Essa disputa macho-macho foi pivotal para a Era Viking, afinal, ninguém irá se arriscar tanto por motivo algum… se for para arriscar sua vida, que seja por algo importante, nesse caso, a possibilidade de criar uma família, no fundo, o motivo era o de qualquer animal: fazer sua linhagem sobreviver.

 

Mas isso não foi a única causa central, a religião foi outra. Você pode até ter os motivos para arriscar a sua vida, mas ainda vai precisar da coragem para fazê-lo, é aí que o wyrd (abraços ao meu amigo Uthred! Na torcida aqui para você retomar sua casa!) nórdico entra em ação. A religião nórdica é peculiar no sentido do destino… para eles, está tudo pré-decidido, até no fim do mundo eles já sabem o que irá acontecer, passo à passo. Isso fez com que os homens e mulheres tivessem a coragem de remar semanas até chegar à locais onde podiam morrer com lanças em suas barrigas. Afinal, sua morte já estava traçada, e não adianta você querer lutar contra isso, você irá morrer, em sua cama, em uma parede de escudo, ou no mar, isso você não sabe. Só sabe que é preciso morrer dignamente, visto que a “boa vida estendida” (falo isso porque vida eterna na religião nórdica não existe, visto que tudo irá acabar no Ragnarok). Deixo aqui as palavras de Price no livro The Viking world para ilustrar melhor (a tradução foi feita por mim, o original em inglês estará no fim do post):

 

“Fomos deixados com uma clara conclusão, a de que os Vikings criaram uma das poucas mitologias no mundo conhecido que inclui o pré-ordenado e a ruína permanente de toda a criação e todos os poderes que moldaram ela, sem vida após a morte permanente para ninguém. O cosmos começou no vazio congelado de Ginnungagap, e vai terminar no fogo da última batalha. Tudo vai queimar no Ragnarok, não importa o que deuses e humanos façam. As consequências de suas ações, seu destino, já está decidido, e, portanto, não importam. O que importa é a maneira que você se porta enquanto encontra seu fim. As implicações psicológicas desse, e de outros aspectos da religião nórdica devem ser levados em conta.”

 

Então, com isso, a pólvora estava armada, e o pavio aceso. A necessidade de se fazer digno, para ser capaz de ter uma família, e a coragem dada pelo destino pré-concebido deram aos nórdicos causas e motivações para pegar os navios que já tinham, e sair de suas terras em direção à terras com governos fortes, ou tão descentralizados que também eram inimigos difíceis.

 

Então é isso gente, espero que eu tenha conseguido fazer alguém ler até essa linha, e que tenha valido a pena fazer isso. Até a próxima!



Fontes:

Brink, S. & N. Price (ed.). In press. The Viking world. London: Routledge.

Clover, C.J. 1988. The politics of scarcity: notes on the sex ratio in early Scandinavia. Scandinavian Studies 60: 147-88.

Crumlin-Pedersen, O. (ed.) 1995. The ship as symbol in prehistoric and medieval Scandinavia. Copenhagen: National Museum of Denmark.

Haywood, J. 1999. Dark Age naval power: a reassessment of Frankish and Anglo-Saxon seafaring activity.

Hockwold-cum-Wilton: Anglo-Saxon Books

Brettell, C.B. 2000. Theorizing migration in anthropology: the social construction of networks, identities, communities and globalscapes, in C.B.

Brettell & J.F. Hollifield (ed.) Migration theory: talking across disciplines: 97-136. London: Routledge.

Wicker, N.L. 1998. Selective female infanticide as partial explanation for the dearth of women in Viking Age Scandinavia, in G. Halsall (ed.) Violence and society in the Early Medieval West: 205-21. Woodbridge: Boydell & Brewer. (https://www.academia.edu/808691/_Selective_Female_Infanticide_as_Partial_Explanation_for_the_Dearth_of_Women_in_Viking_Age_Scandinavia_pp._205-221_in_Violence_and_Society_in_the_Early_Medieval_West_edited_by_Guy_Halsall._Woodbridge_United_Kingdom_Boydell_Press_1998_paperback_2002)

 

Halsall, G. 2003. Warfare and society in the Barbarian West 450-900. London: Routledge.

Barrett, J. H. 2008. What caused the Viking Age?

 

Parágrafo original de Price

We are left with a sobering conclusion, which is that the Vikings created one of the few known world mythologies to include the pre-ordained and permanent ruin of all creation and all the powers that shaped it, with no lasting afterlife for anyone at all. The cosmos began in the frozen emptiness of Ginnungagap, and will end in fire with the last battle. Everything will burn at the Ragnarok, whatever gods and humans may do. The outcome of our actions, our fate, is already decided and therefore does not matter. What is important is the manner of our conduct as we go to meet it. The psychological implications of this and other aspects of the Norse ‘religion’ bear thinking about.

 

Gabriel Vezzani
gabrielvezzani@gmail.com
  • Yara Roussille

    Mais uma vez, um texto fantástico e muito bem explicativo.
    Leio e releio cada um deles, com isso vou aprendendo o que jamais imaginei ter acesso nesse momento da minha vida. Show Gabriel.